Semana passada, conversava com o bom amigo Bruno sobre as realidades discrepantes do sul e nordeste brasileiros. De subdesenvolvimento e miséria a gente já se cansou de falar, e talvez até perdeu a consciência política – aquele papo-cabeça de dissecar a merda brasileira na mesa do boteco. “Mas e a tua infância?”, perguntou-me, quase que me induzindo a uma análise do meu conforto quando moleque versus a desgraça de algum outro menino.
Fica até difícil se admitir numa conversa dessas. Mas, pra minha surpresa, o Bruno me tira da mochila uma foto. É um moleque (que até tem cara de sulista, pela cor da pele e as raízes obviamente européias) trabalhando na enxada, maior que ele, e aparentemente fazendo um bom trabalho… até porque os mais longevos a sua volta não parecem estar descontentes com o serviço do menino e permanecem concentrados no próprio labor.
Em vez de me ater à minha abastada infância, preferi deixá-la de lado e ver se conseguia abstrair do recorte em branco e preto algo além da pobreza, ali tão explícita. O descaso do garoto é tão grande, que pelo jeito o tempo de aprendizado já passou. É a semiótica da sua expressão que mais me fala naquilo tudo. Por trás do rostinho concentrado do menino, vem uma série de fatores consecutivos.
No começo era dúbio, mas agora já incuti na cabeça que ele tem mais de ano trabalhando ali. Reitero: não demonstra cansaço, nem insatisfação aparente, dá conta do tranco sozinho (o mesmo que os adultos parecem aplicar mais esforço pra suportar) e tenho a impressão que o pobrezinho não está nem aí pra hora do break.
Pus a mão sobre a fotografia, cobrindo a massa de gente crescida do segundo plano, e deixei só o menino figurar. Primeiro plano, corte seco, quase um retrato. Deu-me a impressão de que agora, sem os adultos por perto, ele se diverte sozinho no campo – como se fosse um menino da roça que brincava na plantação. Sabe aquelas brincadeiras de criança? Eu fingia ser policial e dar multa pros carros da rua, com meu bloquinho; ele finge que refaz o jardim de casa.
Fiquei pensando se não seria melhor o fotógrafo ter enquadrado a foto da maneira que eu vi: só o menino, brincando na terra. Era a prova da minha mesquinhez, de preferir enxergar o que não dói. Mas aqui no sul a gente é mesquinho, mesmo… deixa o menino brincar em paz.