Zé Tadinho

Pois bem, ontem na aula de crônica nos foi passado um início de texto para que continuássemos. É um mote meio besta, mas me foi de bom serviço. É a primeira crônica-historinha que posto aqui.

Mote: Preocupado com dívidas, um homem vinha andando pela calçada de uma rua pouco movimentada nas proximidades do Zerão. De repente, tropeçou em uma carteira de couro. Abaixou-se, pegou a carteira e descobriu que dentro dela havia um punhado de dólares. Olhou para todos os lados e percebeu, cerca de vinte metros à frente, uma senhora idosa que caminhava lentamente. Correu até a mulher e perguntou se ela não havia perdido nada. A velhinha pensou um pouco, bateu as mãos nos bolsos da blusa e disse: “Ih, meu dinheiro”.

Aqui vai minha continuação…

É claro que ali pelo Zerão, a gente não dá muita bola, mesmo. Aparte o motivo do exercício, e a redondeza se reduz a não muito mais que poucos transeuntes. E esse homem, que prefiro chamar de Zé Tadinho, era só mais um deles, tadinho. O problema é que era o coitado errado. Fosse um maluco qualquer, nem veria a carteira; ou alguém muito de bem com a vida, procuraria o dono só no dia seguinte; e se fosse eu, pegaria o dinheiro sem pudores. Mas, tadinho do Zé, não é nenhum deles. O Zé é um coitado honesto, e por ser honesto, ta afundado em dívida.

Aí ficamos assim: o Zé não pega a grana porque não é direito, ou tem medo; e não devolve porque dá dor no peito, e coceira nos dedos. Ê, Zé, leva logo e se safa dessa! Ou, ah! José, isso não se faz… Deus honra quem tem honra!

O Zé poderia ter virado uma esquina antes, ou não. O fosse feito, do pouco dinheiro que lhe restava se faria menos ou mais pouco. Tadinho do Zé, que não tinha muita escolha mesmo, o dinheiro encontrado ali representava o mesmo dinheiro que ele perdia mais e mais, dia após dia.

“Sinuca!” – gritou o bêbado no boteco, torcendo pro jogo de bilhar -  “Sinuca ele, vai!”. Mais sinucado que já estava? Ah Zé, ta todo mundo contra você, hoje: o tempo, a dívida, Deus e o Diabo, e até o bebum!

“Taqui, minha senhora, deve de ter caído”

“Obrigada, meu filho. Como se chama?”

“Zé, minha senhora, Zé…”

E foram caminhando juntos.

“Tem filho, Zé? Deve ter, né! Tem cara de pai de família, gente honesta.”

“Pois é, to indo ver o Zezinho no hospital.”

“Ai, tadinho. Que que ele tem?”

“Medo, dona, doença do medo.”

“Mediquê?”

“Acho que é de mim, dona. Eu que nunca fiz nada pra ele. Mas é doença, os médicos dizem, né? Fazer o quê?!”

“É, às vezes a gente fica numa sinuca, né mesmo? Eu mesma tive medo de você!”

“É, sim, dona…” – o Zé foi se arrependendo de nem sabia mais o quê.

“Mas a gente esquece no dia seguinte e fica tudo bem, Zé. Coitado de quem não tem problema.”

E o Zé ia levando a conversa nessa mesma pasmaceira, era problema atrás doutro.

“Ta pensando no quê?”, continuou a dona.

“Ah, minha velha, senhora tem filho?”

“Por quê?”

“Coitados deles. A senhora é um problema. Pára de falar, que eu não agüento mais. Ouvi, ouvi e ouvi, esperando que fosse me consolar os problemas ajudar uma velha e a dona só me trouxe mais problemas!”

“Ah, tadinho de você…” ironizou a velha.

“Cala a boca, senão te arranco a carteira e a bengala! Quem fala agora sou eu.”

“E eu que te achei gente de bem. Fosse um maluco qualquer no meu lugar, te arrebentava os dentes.”

E o Zé perdeu a cabeça, coitado. E pegou o que prometera. E só lhe trouxe mais problemas. Tadinho do Zé, foi em cana, flagrado em 155, quase o salário dele. O filho, agora sem pai, tinha medo da mãe, que agora tinha problemas demais pra visitar o Zé na cadeia.

Zé Tadinho acabou morrendo na cadeia de problemas em que foi enfiado, e agora era Deus que estava na sinuca, porque não sabia se o Zé seria problema no céu ou se o inferno era mais um problema injusto na vida do Zé.

Publicado em: on Março 16, 2007 at 2:30 pm Deixe um comentário

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