Nao! Nao me rendo aqui ao rebaixamento da falta de criatividade. Aquele em que os escritores (como se eu fosse um) apelam para cronicar “a falta do que escrever”. Nao ainda. Acontece que me ocorreu, dia ou dois atras, a frustracao da noticia revogada.
Era o Leo que me interrompia no MSN. Nao fosse a vinganca posterior dos fatos, teria sido uma boa interrupcao – por mais que nao houvesse o que ser interrompido.
Veio-me o bom amigo com a calamitosa noticia: “Cara, o Tavares morreu…”. Senti acelerarem os batimentos cardiacos e a urgencia de fumar – irrelevando que, combinados, aproximariam-me da mesma morte. Ah! Tavares. Justamente voce, que tantos risos nos proporcionou, com mesmas tantas balelas que nos contou. Voce, que angariou com justo merito o proprio verbete na lingua portuguesa: tabarismo.
Eh fato, de quase todo professor se tem o que comentar, humoradamente. Mas desse, fizeram-se noites de conversa ininterrupta, trabalhos de faculdade homonimos, jingles politicos, programa de radio, parodias de classicos oitentistas – nao meras comunidades de Orkut, ainda que houvesse pelo menos uma.
Havia nele a controversia mais insolita: era famoso por ser ruim, porem, era prazeroso lhe ver lecionando. Uma mao posta sobre o queixo (que fazia inveja ao Cepacol), com os dedos semi-curvos frente aa boca, cobrindo totalmente os labios e tangendo as narinas. A voz sempre grave e fixa no mesmo tom. As palavras eram dirigidas de maneira inconstante, variando no ritmo que so dele era peculiar. E, por fim, fosse interrompido, era invariavel que soltasse seu bordao: Justamente.
Pelos corredores da universidade, ecoavam a todo momento as carinhosas e nao poucas alcunhas por que era conhecido: Tavares, Tabaco, Tabengo (ou somente Bengo), e assim por diante. O nome de batismo era evitado por algum motivo. Pouco importava. Foi a partir de seu ultimo nome que formou-se a escola de seguidores, os tabaristas. Menos conhecidos, porem nao menos importantes ou valiosos que, por exemplo, os modernistas, cubistas, behavioristas… Figuravam dentre tantos renomados istas, e a isso faziam jus. Justamente.
Nao quero me ater a que se prestava a doutrina tabarista. Basta o fato de ter vencido a corrente zemplista, porinzemplus. Fez dela trova burlesca, piada. Amassou-a como se espremem espinhas do torax, olhando-a de cima. Era guerra declarada, mais do que “Girondinos X Jacobinos”. Tavares, por sua vez, nunca tomou parte, nem para os aristocratas, nem para os sans-culotte. Venceu neutro, justo.
Morria agora como morre um heroi, de surpresa, para fazer fama post mortem. Era chegada a hora de se revelarem tantos segredos a nos confiados (como a sexualidade de renomes da estirpe de Boris Casoy, Marcelo Coelho, Gilberto Dimenstein, Clovis Rossi…), hora de nos justapormos para homenagea-lo com justica.
Nao poderia eu fazer descaso da tragedia. A ele, prestaria minha homenagem. Mas a arte imita a vida e, dez minutos depois, volta-me o Leo: “Cara, perdao… na verdade, foi a mae dele que morreu.” Era tabarismo. Nao quis saber, por-me-ia a escrever, mesmo nao-noticiando. Fui enganado, justamente.